Gestão de Finanças e Valor

Sua empresa é um patrimônio: o que é gestão voltada ao valor (e como aplicá-la no dia a dia)

Sua empresa é um patrimônio: o que é gestão voltada ao valor (e como aplicá-la no dia a dia)

Mateus Falcão

Autor

Você cuida do seu imóvel. E da sua empresa?

Imagine que você tem um apartamento alugado. Você recebe o aluguel todo mês, mas também pinta as paredes, conserta o que quebra e escolhe bem o inquilino. Por quê? Porque sabe que aquele imóvel é um patrimônio: se for bem cuidado, vale mais amanhã do que vale hoje.

Com a empresa, a maioria dos empresários age diferente. Olha só para o "aluguel", o lucro do mês, o saldo no banco e esquece que o negócio inteiro também é um bem. Um bem que tem preço, que pode ser vendido, que pode receber um sócio investidor ou servir de base para conseguir crédito em melhores condições.


O que é gestão voltada ao valor

Gestão voltada ao valor (em inglês, Value-Based Management) é uma forma de administrar em que toda decisão importante passa por uma pergunta: isso vai fazer minha empresa valer mais?

Não se trata de uma ferramenta complicada nem de algo só para grandes corporações. É uma mudança de lente. Em vez de perguntar apenas "quanto vou lucrar este mês?", o gestor passa a perguntar também "essa escolha deixa o negócio mais forte, mais previsível e mais atraente daqui a alguns anos?".

Na prática, o valor de uma empresa é quanto alguém bem informado pagaria hoje pelo dinheiro que ela vai gerar no futuro, descontado o risco de esse dinheiro não vir. Guarde essa frase: ela explica quase tudo o que vem a seguir.


Lucro não é o mesmo que valor

Pense em duas distribuidoras de alimentos na sua cidade. As duas lucram R$ 40 mil por mês. Pelo lucro, parecem iguais. Mas olhe mais de perto:

Se você fosse comprar uma delas, qual pagaria mais? Empresa B, sem dúvida. Ela precisa de menos dinheiro para gerar o mesmo lucro. Não quebra se perder um cliente. Não para se o dono tirar férias. E mostra números em que um comprador ou um banco pode confiar.


Mesmo lucro, valores muito diferentes.

É exatamente isso que a gestão voltada ao valor enxerga e que a visão focada só no resultado do mês deixa passar.


As três alavancas do valor

Voltando à frase-chave: valor é o dinheiro futuro, ajustado pelo risco. Daí saem as três alavancas que qualquer gestor pode mover.

1. Geração de caixa. Não basta vender nem lucrar no papel. O que conta é o dinheiro que sobra de verdade, depois de pagar fornecedores, equipe, impostos e o que foi preciso investir. Empresa que lucra mas vive sem caixa vale pouco.

2. Crescimento com retorno. Crescer só cria valor quando cada real investido rende mais do que custa. Se você coloca R$ 100 mil numa nova loja e ela devolve 8% ao ano, mas esse dinheiro poderia render 12% numa aplicação segura, a empresa cresceu e o patrimônio encolheu. Crescer no prejuízo é correr para trás.

3. Risco. Quanto mais incerto o futuro do negócio, menos alguém paga por ele. Dependência de um cliente, de um fornecedor ou do próprio dono, dívidas mal estruturadas e números pouco confiáveis aumentam o risco. Reduzir esses pontos aumenta o valor mesmo sem vender um real a mais.

Toda decisão do dia a dia mexe em pelo menos uma dessas três alavancas. A boa decisão é a que melhora uma sem piorar as outras.


8 decisões do dia a dia que aumentam o valor da sua empresa

Gestão voltada ao valor não acontece numa reunião anual de planejamento. Ela acontece nas escolhas pequenas, repetidas toda semana.

1.  Antes de dar desconto, faça a conta

Um desconto de 10% parece pouco. Mas se sua margem de contribuição é de 30%, esse desconto leva um terço do que sobra de cada venda. Para manter o mesmo resultado, você precisaria vender 50% a mais. Antes de baixar preço, pergunte quanto volume extra a venda precisa trazer para compensar.

2.  Trate prazo e estoque como dinheiro

Cada dia a mais de prazo para o cliente e cada caixa parada no depósito é dinheiro seu financiando a operação. Uma empresa que fatura R$ 300 mil por mês e reduz o prazo médio de recebimento em 10 dias libera cerca de R$ 100 mil no caixa. Sem vender nada a mais e sem tomar empréstimo.

3.  Olhe margem, não só faturamento

Nem todo produto e nem todo cliente contribuem igual. Descubra quais itens e quais clientes deixam mais dinheiro depois dos custos diretos. Muitas vezes, os 20% mais rentáveis sustentam o negócio e os de menor margem só dão trabalho. Priorize os primeiros na vitrine, no estoque e na atenção da equipe.

4.  Todo investimento precisa render mais do que custa

Maquinário novo, reforma, filial, sistema. Antes de decidir, estime quanto aquilo vai trazer por ano e compare com o custo do dinheiro usado, seja ele próprio ou emprestado. Se o retorno não supera esse custo com folga, o investimento pode esperar.

5.  Diminua a dependência do dono

Se tudo passa por você, a empresa vale menos, porque o comprador sabe que o negócio sai pela porta junto com você. Documente processos, delegue decisões rotineiras e forme pessoas-chave. Isso reduz risco e ainda libera seu tempo para pensar no crescimento.

6.  Espalhe o risco de clientes e fornecedores

Nenhum cliente deveria responder por uma fatia grande demais do faturamento, e nenhum insumo crítico deveria ter um único fornecedor. Diversificar pode custar um pouco hoje, mas protege o negócio contra choques que derrubam o valor da noite para o dia.

7.  Busque receita recorrente

Contratos, assinaturas, manutenção programada, clientes fiéis com compra previsível. Receita que se repete é mais valorizada do que receita que precisa ser reconquistada todo mês, porque torna o futuro mais previsível.

8.  Arrume a casa financeira

Separe as contas da pessoa física e da empresa. Tenha DRE e fluxo de caixa atualizados todo mês. Mantenha a contabilidade em dia. Números confiáveis reduzem o risco percebido por bancos e investidores, o que significa crédito mais barato hoje e um preço melhor se um dia você quiser vender ou trazer um sócio.


Um filtro simples para qualquer decisão

Antes de aprovar uma compra grande, uma contratação, um desconto ou um novo projeto, passe a ideia por quatro perguntas:

1.      Isso aumenta o caixa que a empresa gera, e não só o faturamento?

2.      Quanto dinheiro isso vai prender em estoque, prazo ou investimento?

3.      O retorno supera o custo desse dinheiro, com margem de segurança?

4.      Isso deixa a empresa mais ou menos arriscada, mais ou menos dependente de alguém?

Se as respostas forem boas, a decisão provavelmente cria valor. Se alguma acender o alerta, vale parar e refazer as contas.

Indicadores para acompanhar todo mês

Você não precisa de dezenas de números. Estes cinco já mostram se o patrimônio está crescendo:

Comece pequeno, mas comece hoje

Você não precisa estar pensando em vender a empresa para gerir com foco em valor. Uma empresa que vale mais consegue crédito mais barato, atrai bons sócios e profissionais, atravessa crises com mais fôlego e dá ao dono liberdade de escolha sobre o próprio futuro.

Escolha uma das oito decisões acima e aplique ainda este mês. Talvez seja rever os descontos, cobrar em prazo menor ou separar as contas. Depois acompanhe os cinco indicadores e veja o patrimônio responder.

Seu negócio não é só a fonte da sua renda. É um ativo que você constrói todos os dias. Trate-o assim!